Este filme permite análise à luz de várias inter-relações entre os personagens dessa trama. É possível observar uma dinâmica edipiana tardia que se estabelece entre Nina, Lilly e Thoma onde Nina se sente constantemente ameaçada pela bailarina concorrente e o objeto desse temor é o lugar de rainha cisne.
É possível observar seu caráter narcisista e obsessivo decorrente da relação com sua imago materna, que influenciou na constituição da subjetividade primitiva de Nina.
Nina quase não se alimenta, vomita, se arranha e ensaia até a exaustão. A busca pela perfeição é algo obsessivo/compulsivo, não existe alternativa para a bailarina que esta totalmente identificada com o olhar projetivo e invejoso de sua mãe, uma mãe solitária, castradora que parece não permitir que sua filha seja outro ser humano que não o reflexo de seus desejos frustrados e reprimidos. A filha é a mãe e a mãe é a filha dentro dessa dinâmica.
“A segunda teoria da psicanálise de Freud resultava da suposta perspectiva hermenêutica da criança, cuja tendência narcisista a faz achar que todos os acontecimentos na realidade externa são causados por impulsos que vêm do seu interior, não tendo ainda a maturidade para explicar o mundo separado do self que tem um agente causador diferente”. (Little, M. ).Fiorini (1986) coloca que o sujeito obsessivo fica em uma posição de ser o desejo do outro (cobrando-se ser reconhecido e ter que corresponder a demanda alheia), encobrindo a existência de um sujeito também desejante.
Durante a trama o desejo de ser a escolhida aparece e é incentivado e provocado pelo diretor do balé Thoma. Nina é envolvida pela proposta e nasce seu interesse por Thoma, o diretor, ou pelo que o mesmo poderia proporcionar a ela, o papel principal, algo que teria que ser dela, por isso pegou alguns dos pertences pessoais de Beth, a antiga bailarina, simbolizando seu desejo de interiorizar características desta bailarina que considerava perfeita.
Segundo Fiorini (1986), a pessoa com estrutura obsessiva considera que seu problema é a falta de perfeição e não a aspiração a esta perfeição. Em muitos casos acaba esgotando-se e desiludindo-se, ficando sem saber para onde canalizar sua raiva impotente, podendo dirigir boa parte desta raiva a si mesma, exigindo-se de forma implacável, sem intervalos, ter que dar tudo que é capaz.
Ao conseguir o papel a protagonista começa a entrar em contato com sentimentos como inveja e competição e Nina vai deixando mais claro sua dificuldade de lidar com sua agressividade, logo com sua sexualidade também. Sua angústia aumenta ao conseguir o que buscava, precisando, muitas vezes, se auto agredir para livrar-se dela (angústia) por alguns instantes.
Thoma provoca Nina mostrando a bailarina Lilly, comenta que ela é naturalmente sedutora, que se deixa levar e seduz sem esforço não se cobrando de uma técnica impecável. Nina começa a observá-la e sente-se ameaçada pela presença da mesma, começa a sentir raiva e desejo, identifica Lilly como má, ameaçadora e ao mesmo tempo a deseja, deseja ser como ela. Começa a questionar seu conceito de perfeição.
“A organização defensiva, que no neurótico se centra no recalcamento, é baseada na clivagem e outros mecanismos associados, como a idealização primitiva, identificação projetiva, denegação, controle onipotente e desvalorização, protegem o ego dos conflitos, dissociando experiências contraditórias do self e dos outros. Em relação à clivagem, tanto do self quanto dos objetos externos em totalmente bons ou totalmente maus”. (Hegenberg, M, p.35).
A bailarina opera defesas psicóticas, se vê de negro, perversa. Ora projeta a inveja, agressividade e a sexualidade na outra bailarina (Lilly), ora começa a ter visões de si mesma a perseguindo, como um ser a espreitar e rir-se dela. Ela se machuca constantemente.
A fantasia se confunde com a realidade, ao se drogar sua sexualidade aflora e desejos reprimidos veem à tona. Nina tem relação sexual com Lilly e tem um orgasmo, ao final, Lilly se transforma nela mesma. Nina goza com sua gêmea perversa e ao final o prazer é substituído pela culpa, representada pela imagem de sua mãe castradora querendo sufocá-la.
“Clinicamente, um comportamento de automutilação e/ou gestos suicidários surge durante crises de cólera misturada com explosões súbitas de humor depressivo e depois de uma exploração mais generalizada e revelam-se como gestos destinados a estabelecer e restabelecer um controle sobre o meio ambiente, provocando no outro sentimento de culpabilidade”. (Hegenberg apud Kernberg, p. 63).Aos poucos Nina vai entrando em contato com um lado seu que, até então parecia não conhecer, o lado do Cisne Negro.
À medida que Nina vai se identificando com o seu conteúdo recalcado, com a sua sexualidade, perversão e inveja então a agressividade se volta para a mãe e ela se rebela contra a opressão, vive o seu prazer perverso até as últimas conseqüências, na busca pela perfeição. Na alucinação ela deixa de ser a inocente e se transforma em sua gêmea oposta para matar a rival imaginária, ela mata seu lado negro projetado em Lilly. Ela mata a si mesma nessa confusão entre fantasia e realidade para poder viver o cisne negro e a metamorfose se completa psiquicamente. Ela beija Thoma.
Porém, sem capacidades egóicas básicas a elaboração se faz impossível, a bailarina passa de SUPEREGO para ID, objeto bom e mau, sem filtro, sem fusão e sem elaboração. Se a perfeição era ser perversa, ela conquistou a perfeição. Simbólicamente ela teria conseguido matar a imago castradora e invejosa representada pela mãe.
“A única secundarização possível nestes pacientes e que constitui um amálgama entre violência e libido situa-se num eventual masoquismo moral... Uma via muito ameaçadora de ataque a si próprio, no fim do qual vemos sempre despontar o risco suicidário, seja qual for sua forma aparente”. (Hegenberg apud Bergeret, p.57)
Autores:
Enrique Moura
Natália Martins da Silva
Tífanny Zelante Alonso Krejici
USP-2011
BIBLIOGRAFIA
FIORINI, H.J. Estruturas e abordagens em psicoterapia. Tradução Reinaldo Guarany. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1986.
Hegenberg, M. Borderline: Coleção Clínica Psicanalítica. Editora Casa do Psicólogo, São Paulo, 2000.
Little, M.I. Ansiedades Psicóticas e Prevenção: registro pessoal de uma análise com Winnicott. Editora Imago, Rio de Janeiro, 1992.

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